O Demônio em Criança

Vamos chamar esta criança pelo nome fictício de Jeováne. Jeováne é um menino com não mais de 10 anos, creio e também atendia (ou não) pela alcunha de "filho para", mas vou voltar um pouco na história para que entendamos um pouco melhor.

Dia 1

Era uma semana comum de Abril, quando uma senhora pela qual apelidarei com o nome fictício de Xuliane entrou pela porta do hotel. O maior medo dos recepcionistas ao verem uma mulher mais velha com duas crianças, sendo uma de colo e outra bem jovem, é a falta de documentação, pois ninguém quer passar pela situação de negar um teto a alguém ou receber xingamentos e palavras de baixo calão em sua jornada de trabalho. Mal sabíamos que o pior estava por vir.

Jeováne se apresentou como um garoto ativo, uma criança normal, curiosa. Sua mãe, uma senhora branca, magra, com os seus 40 anos era uma pessoa até que simpática. O check-in foi feito, subiram para o apartamento e logo desceram para a piscina, a primeira estranheza veio quando Jeováne chegou a recepção sozinho e sem camiseta para pedir uma toalha de piscina. O advertimos dizendo que ele não pode andar sozinho pelas dependências do hotel e demos as toalhas. Depois de algumas horas, recebemos a informação de que ele tinha jogado uma das cadeiras dentro da piscina, um dos funcionários do hotel retirou a cadeira, depois deste dia, subiram para o apartamento e já não desceram.

Dia 2

Quando cheguei ao hotel, já haviam algumas noticias da criança causando problemas no restaurante. Disseram que ele havia aberto saches de açúcar e espalhado por todo restaurante, pegou um saleiro e subiu para o apartamento, e um dos deveres da equipe era recuperar o bendito saleiro e um porta guardanapos.

Estavam tentando ligar para o apartamento, mas o menino sempre atendia e desligava,  deixando a sua mãe totalmente passiva na situação. Pensei então em ligar e sempre que ouvisse a voz da criança, desligaria, até que a sua mãe se rendesse ao toque do telefone e atendesse, e foi isso que aconteceu. Ele atendia e eu desligava, ele atendia e eu desligava, depois de repetir este ritual por umas boas 15 vezes, a sua mãe atendeu, o diálogo foi o seguinte:

Eu: Boa noite senhora, precisamos dos itens do restaurante de volta imediatamente, para que o restaurante utilize para o café da manhã.
Xuliane: Que itens?
Eu: O saleiro de vidro e o porta guardanapos.
Xuliane: Vamos devolver.
Eu: Vou subir para buscar então.
Xuliane: Não, vamos devolver amanhã.
Eu: Senhora, precisamos imediatamente.
Xuliane: Mas não vai fazer falta, vocês têm muitos.
Eu: Sim, fará falta senhora.
Xuliane: Vamos devolver.
Eu: Além do mais a criança pode se machucar se quebrar o saleiro.
Xuliane: Eu me responsabilizo.
Eu: Senhora, é um item do hotel e nós somos responsáveis.
Xuliane: Eu me responsabilizo, vou devolver amanhã no café da manhã.
* Desligou o telefone

Conversei com os responsáveis do restaurante e pela manhã iam tentar recuperar o item com ela.

Dia 3

Já esperando um outro dia de estresse, cheguei ao hotel e já haviam outras novidades do Jeováne, que corria pelo mezanino, molhando todo o chão. A sua mãe estava na recepção quando eu cheguei, estava com a outra criança ainda de colo somente de frauda. A mulher não parava de chamar o seu filho "filho para, filho para" e ele não parava de correr pelo lobby, saltando sobre o sofá, esbarrando em outros hóspedes e gritando. Porém ela não estava ali sem motivos, ela precisava fazer uma ligação e veio pedir para a recepção ajudá-la, se aproveitando da inocência e o bom coração dos recepcionistas que a ajudaram. A ligação era para a polícia, que havia retido o seu documento no Aquário de São Paulo, algo que a princípio achamos estranho, mas que com o tempo foi se aclarando.

Ela disse que o seu filho estava apenas "brincando", quando os responsáveis pelo Aquário chamaram a policia por acusação de depredação, a polícia reteve o documento da mãe para verificar, ela não quis esperar a devolução e voltou para o hotel.

Naquela noite ligou umas 10 vezes para a polícia e nada acontecia, meio a essas horas de espera, onde os recepcionista tiveram que aguentar os gritos da criança, as perguntas indignadas dos hóspedes que chegavam e viam toda essa bagunça, chegou um grupo de estudantes que se hospedaria no hotel por 3 dias, e a parte dos problemas com alguns estudantes que não tinham documentação exigida para se hospedar, tendo que entrar em contato com os pais, escutar reclamações vazias e etc., a equipe se manteve emocionalmente forte, com boa postura e elegância. (Parece que estou puxando o saco, mas não é fácil aguentar essa situação)

Depois de alguns minutos, já resolvido o problema dos menores, a polícia chegou e devolveu o documento da Xuliane, mais um dia terminava e estávamos exaustos psicologicamente e fisicamente.

Dia 4

Era uma noite movimentada no trabalho, alguns eventos importantes, sendo um deles de pessoas importante na administração do hotel, que estava acontecendo no mezanino. Jeováne já estava na piscina com a sua mãe e a movimentação no lobby era intensa. Eu estava saindo da recepção para ir ao toalete quando vi uma boia molhada descendo do mezanino para o lobby, olhei para a cara do segurança e ele olhava para cima preocupado, não pensei duas vezes e subi as escadas, temendo que a boia machucasse algum hóspede ou estragasse algo. Quando cheguei no mezanino Jeováne estava jogando a boia novamente e sua mãe e irmã de colo apenas assistindo. Eu então o adverti "Não pode", ao mesmo tempo puxando a boia para cima com cuidado, Xuliane dizia "Deixa o meu filho, ele só está brincando" e eu respondi "Isso não é brinquedo, é um equipamento de segurança, e tenho que zelar para que o seu filho não se machuque", então ela respondeu "Ele não vai se machucar!", eu dizia "Cuidado, cuidado para não se machucar" e colocava sutilmente mais força para que ele desistisse da boia, a irmã de Jeováne gritava "DEIXA O MEU IRMÃO!" e ele também gritava "SOLTA, SOLTA", eu sentia os olhares dos hóspedes desde o lobby sobre mim, mas mesmo assim não soltei, apenas aumentei o tom de voz "Cuidado para não se machucar, SENHORA, isso é um equipamento de segurança, EU NÃO QUERO QUE ELE SE MACHUQUE" e então, notei que a porta da sala de eventos ao meu lado se abriu e saiu uma senhora muito bem vestida, que se intitulou diretora do hotel bradou "MINHA SENHORA, O SEU FILHO NÃO PODE BRINCAR COM EQUIPAMENTO DE SEGURANÇA, QUEM A SENHORA PENSA QUE É PARA CAUSAR TODO ESTE ESCARCEL, ISSO AQUI É UM HOTEL, NÃO É A SUA CASA" (não me lembro muito bem das palavras, porém foi bem parecido com isso), imediatamente o menino soltou a boia e eu desci, escondi ela no maleiro e me senti muito aliviado por não precisar aguentar a situação.

Ouvimos a Senhora e Xuliane discutirem por um tempo e depois tudo voltou ao normal, eles voltaram para a piscina e a Senhora para o evento. Depois que a gerente geral saiu deste evento, foi imediatamente conversar com Xuliane para advertí-la da conduta que ela deveria tomar. Mesmo assim não adiantou muito.

Dia 5

Era um dia de final de semana se não me engano, não me lembro muito bem, pois as memórias foram ofuscadas pelos fatos mais chocantes da noite. Havia uma movimentação incomum dos hóspedes do grupo de jovens citado no Dia 3 e quando cheguei, já ouvi Jeováne causando o caos na recepção, ele pegava materiais da recepção e jogava no chão, pegou um apoio de punho do teclado e ficava batendo, criando um barulho insuportável no lobby, chamando a atenção de todos os hóspedes. Todos se sentiam inúteis frente a situação, já que a única pessoa que possuía o poder de pará-lo, estava assistindo tudo passivamente. Ele jogou água dentro da recepção com uma arminha de brinquedo, estressando todos os recepcionistas que não precisavam passar por isso, além disso riscou as paredes do lobby com caneta.

A policia foi chamada pela chefia de plantão, mas não adiantou muito, a criança estava descontrolada, presenciei uma das cenas mais humilhantes na minha vida profissional, que foi um membro da chefia parado em frente a fachada do hotel, enquanto o menino jogava pedras pequenas e areia nele, a sua mãe assistia com a filha no colo e alguns hóspedes se revoltavam vendo a cena, alguns somente olhavam e outros iam de fato falar com a hóspede sobre a sua conduta, o que não mudava muita coisa.

Depois de uma conversa com a chefia, Xuliane se "humilhou" a "limpar" as paredes do lobby com um balde e um produto que ela mesmo procurou dentro de áreas de acesso restrito a funcionários. E enquanto limpava, falava "chama a sua chefia para ver o que estou fazendo" e chamando a atenção das pessoas.

Esta foi a última vez que vi esta pessoa e espero que nunca mais a veja e nem o seu filho. Foi uma experiência muito marcante, pois eu não tinha referência de uma criança tão descontrolada, e não sabia o ponto que pode chegaria uma má-criação ou negligencia dos pais. Além disso, as minhas definições de estresse foram atualizadas.


OBS: Fato aconteceu em 2018. Embora os acontecimentos narrados acima sejam fatos, salvo engano sobre a ordem
e quantidade dos dias.

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